
TendênciasComo as pessoas realmente usam IA em 2026 (segundo a Harvard Business Review)
Todo mundo pensa que sabe para que serve IA: responder e-mail, resumir texto, fazer planilha. A Harvard Business Review foi atrás dos dados reais e a resposta é outra.
Em junho de 2026, Marc Zao-Sanders publicou a terceira edição do estudo "How People Are Really Using AI in 2026". Analisou 12.637 casos reais de uso. E pelo segundo ano seguido, o uso número 1 não é trabalho. É terapia e companhia, que dobrou de tamanho e já representa 11% de tudo.
O estudo também deu nome a um risco que eu já vinha percebendo nos meus alunos: o thinkslop, o hábito de terceirizar o próprio pensamento para a IA.
O que é o estudo da Harvard Business Review sobre uso de IA
"How People Are Really Using AI in 2026" é a terceira edição de uma pesquisa anual (as anteriores saíram em 2024 e 2025), escrita por Marc Zao-Sanders e publicada na HBR em 1 de junho de 2026.
- ✿12.637 casos de uso analisados
- ✿Um banco de quase 50.000 registros, coletados entre março de 2025 e fevereiro de 2026
- ✿Fontes: Reddit, Quora, artigos e, pela primeira vez este ano, também LinkedIn, TikTok e YouTube
- ✿Curadoria híbrida, combinando análise humana e de IA
E o pano de fundo: o ChatGPT chegou a 900 milhões de usuários por semana, o Gemini passou de 750 milhões por mês. IA virou rotina.
Os 10 usos de IA mais populares em 2026
- ✿1. Terapia e companhia
- ✿2. Solução de problemas (troubleshooting)
- ✿3. Diversão e brincadeira
- ✿4. Fan fiction e criação de histórias
- ✿5. Uso técnico de software
- ✿6. Operações autônomas (agentes de IA), novo na lista
- ✿7. Conselhos de relacionamento
- ✿8. Colega de trabalho (work buddy)
- ✿9. Astrologia e leitura de tarô, novo na lista
- ✿10. Conselhos gerais
Repara na lista. O topo não é trabalho. É gente buscando apoio emocional, diversão e autoconhecimento.
Terapia e companhia: o uso número 1, de novo
Terapia e companhia lidera pelo segundo ano seguido: mais de 1.400 relatos, 11% de todo o banco de dados. No ano anterior, era 5%. Dobrou em 12 meses.
As pessoas usam IA para desabafar, pedir conselho, ter um espaço seguro para perguntar o que não perguntariam a ninguém. Tem gente que dá nome à IA (um usuário batizou a sua de "Bubby") e sente algo parecido com luto quando o modelo muda. Um relato comparou a troca de modelo a "perder um amigo para o câncer".
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Com lista de espera e dificuldade de acesso à saúde mental, faz sentido que muita gente recorra à IA para apoio emocional. Mas um chatbot de uso geral não substitui um profissional de saúde mental. Hamilton Morrin, pesquisador em neuropsiquiatria do King's College London.
Eu concordo com ele. Uso IA todo dia, ensino milhares de mulheres a usar IA todo dia, e ainda assim essa linha para mim é clara: acolhimento não é terapia.
As três grandes mudanças de 2026
- ✿A explosão do emocional: terapia e companhia foi de 5% para 11%.
- ✿A IA que age sozinha: "operações autônomas", os agentes de IA, estreou no top 10 na 6ª posição. É a IA saindo do "responder" para o "fazer".
- ✿Astrologia e tarô entraram no top 10 (9ª posição), sinal de que IA também virou ferramenta de curiosidade, espiritualidade e reflexão.
Thinkslop: o alerta que quase ninguém está comentando
Essa foi a parte que mais me chamou atenção. Os pesquisadores batizaram o maior risco do momento de thinkslop: terceirizar o próprio pensamento para a IA.
O nome vem de "slop" (palavra do ano de 2025 pela Merriam-Webster) e é primo do "workslop". A ideia é simples e incômoda: em pelo menos 1 de cada 4 usos do topo da lista, a pessoa está pedindo que a IA pense por ela.
- ✿Perder as intenções: você dispara um prompt antes de pensar direito no que quer.
- ✿Terceirizar o raciocínio: ir direto para a IA tira do seu cérebro a chance de resolver o problema sozinho (outros estudos chamam isso de "dívida cognitiva").
- ✿Parar de escrever: colar a resposta da IA sem editar tira de você o próprio processo de pensar, porque escrever é pensar.
- ✿Falso senso de rigor: a IA foi treinada para agradar. Quando ela elogia demais uma ideia mediana, você para de melhorar cedo demais.
Como usar IA sem cair no thinkslop
Aqui é onde eu bato o pé: IA boa é a que te faz pensar melhor, não menos. É basicamente o que eu ensino nos meus cursos.
- ✿Não comece pela IA: dê a si mesma uma chance de pensar antes de abrir o chat.
- ✿Defina limites: decida o que é seu e o que é da IA, e não misture os dois.
- ✿Use como sparring, não como puxa-saco: peça para a IA discordar de você, apontar falhas, testar seus argumentos.
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A IA é um espelho, não um gênio da lâmpada.
Os riscos que ninguém te conta: alucinação e dependência emocional
Falar só de thinkslop não é suficiente. Tem mais dois riscos que quem não tem letramento em IA simplesmente não enxerga.
O primeiro é a alucinação. IA generativa não verifica fato, ela prevê a palavra mais provável. Isso significa que ela pode te dar uma resposta errada com a mesma confiança de uma resposta certa. Sem letramento em IA, você não sabe que precisa desconfiar, e aí toma decisão real em cima de informação inventada.
O segundo é a dependência emocional. O próprio estudo mostrou gente que sente luto quando o modelo muda. E aqui vai um ponto que pouca gente para pra pensar: esses modelos não são permanentes. Empresas de IA descontinuam versões, mudam comportamento, encerram produtos. Se você constrói apoio emocional em cima de uma ferramenta que pode sumir ou mudar do dia para a noite, você está construindo em terreno instável.
Como construir relações sólidas na era da IA
IA pode ajudar você a organizar pensamento, treinar uma conversa difícil, ou fazer companhia num momento sozinho. Isso tem valor. Mas relação de verdade se constrói com gente, com tempo, com presença que não depende de servidor ligado.
- ✿Use a IA para praticar o que você vai falar com uma pessoa, não como substituto da pessoa.
- ✿Perceba quando você está recorrendo à IA porque é mais fácil, não porque é melhor.
- ✿Mantenha pelo menos um espaço de apoio emocional que seja humano: terapia de verdade, amizade, família.
- ✿Lembre que a IA concorda com você com muito mais frequência do que qualquer pessoa real concordaria. Isso não é sinal de que você está certa, é sinal de como o modelo foi treinado.
Uso seguro de IA: o que fazer e o que evitar
Faça:
- ✿Verifique fatos importantes em fonte confiável antes de agir, principalmente em decisão de saúde, dinheiro ou direito.
- ✿Trate a resposta da IA como ponto de partida, não como veredito final.
- ✿Use mais de uma fonte para decisão importante.
- ✿Priorize relação humana para suporte emocional contínuo.
Evite:
- ✿Tomar decisão de saúde, dinheiro ou direito só com base numa resposta de IA, sem checar com um profissional.
- ✿Compartilhar dado sensível (senha, documento, dado de terceiro) sem necessidade real.
- ✿Confundir confiança no tom da resposta com precisão do conteúdo: a IA soa segura mesmo quando está errada.
- ✿Depender de um modelo específico como se ele fosse permanente.
O que isso muda para você
A grande lição de 2026 é que IA deixou de ser só ferramenta de produtividade. Virou também interface para curiosidade, criatividade, apoio emocional e autoconhecimento. Isso não é bom nem ruim por si só. O que decide é como você usa, e quanto letramento em IA você tem para usar com consciência.
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Use IA como parceira que amplia seu pensamento, nunca como muleta que pensa no seu lugar, e nunca como substituto de relação humana ou de ajuda profissional de verdade.
O que é o estudo "How People Are Really Using AI in 2026"?
É a terceira edição de uma pesquisa anual da Harvard Business Review, escrita por Marc Zao-Sanders, que analisou 12.637 casos reais de uso de IA entre março de 2025 e fevereiro de 2026.
Qual é o uso número 1 de IA em 2026?
Terapia e companhia, pelo segundo ano seguido. 11% de todos os casos analisados, o dobro do ano anterior.
O que é thinkslop?
É o hábito de terceirizar o próprio pensamento para a IA. O termo foi cunhado no estudo da HBR para descrever o pensamento preguiçoso que o uso excessivo de IA pode gerar.
A IA pode estar errada quando responde algo?
Sim. Isso se chama alucinação: a IA gera uma resposta que soa confiante e correta, mas pode ser factualmente errada, porque ela prevê palavras prováveis, não verifica fatos. Por isso, decisão importante sempre precisa de checagem em fonte confiável.
É problemático usar IA como companhia?
Usar IA para desabafar ou organizar pensamento não é problema em si. O risco aparece quando ela substitui, em vez de complementar, relação humana e ajuda profissional, e quando você esquece que o modelo pode mudar ou deixar de existir.
Como usar IA sem prejudicar o próprio raciocínio?
Não comece pela IA, defina limites claros entre o que é seu e o que é dela, e use a IA como sparring: peça que ela discorde e questione, em vez de só concordar.
Fonte: Zao-Sanders, Marc. "How People Are Really Using AI in 2026." Harvard Business Review, 1 de junho de 2026. https://hbr.org/2026/06/how-people-are-really-using-ai-in-2026
